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   Entrevistas Gerais  

Fernando Antônio de Moraes Achiamé Uma vida em verso e prosa

"A poesia não deveria ser encarada pelas pessoas somente como tempero para os acontecimentos da vida, por lhes dar mais sabor. Mas como prato principal, por alimentar a alma humana..." É assim que o poeta, historiador e auditor fiscal Fernando Antônio de Moraes Achiamé define a importância da poesia em sua vida. Este auditor que há 34 anos dedica sua vida ao Fisco Estadual faz de seu trabalho uma poesia e de sua vida um livro que com certeza deixará boas marcas na história de nosso Estado.

O Poeta

O gosto pela poesia começou na infância. Fernando conta que sempre gostou de ler e escrever, e lembra que sua primeira poesia falava da natureza. "Tinha uns onze anos, era coisa de criança com rimas e quadrinhas". Bastou começar para Fernando tomar gosto e não parar mais. "Existe uma teoria, com a qual eu concordo, que considera todo ser humano capaz de fazer poesia, pelo menos potencialmente. Quer dizer, a capacidade que o homem tem de transcender a realidade que o cerca por meio da arte é inata. Uns deixam de lado seu potencial artístico e se dedicam a atividades diversas e outros o desenvolvem. Foi o que aconteceu comigo, comecei na infância e não parei mais."

E de onde será que vem tanta inspiração? "A poesia é fundamental na minha vida, mas não a considero como um dom especial, o poeta registrando simplesmente as idéias que já nasceriam prontas. Costumo dizer que poesia, como toda arte, é 10% de inspiração e 90% de transpiração. Você tem que trabalhar o texto, tem que se dedicar para dar vazão ao seu lado emotivo, a seus sentimentos. Escrever poesia é uma maneira de estar no mundo, de viver no mundo, de encarar a vida."

E com essa receita, Fernando conta que já escreveu poemas sobre seu trabalho no Arquivo Público, na Secretaria da Fazenda, na Ufes como professor de história da arte. O cotidiano é sua fonte maior de inspiração - "o passageiro ao meu lado ou a paisagem que passa lá fora do ônibus, por exemplo". Fernando publica seus poemas em jornais, revistas, coletâneas. Em 2000 lançou o livro de poesias A obra incerta, e em 2008 pretende lançar sua próxima obra, O livro simples, que já está pronta.

O historiador

Além de poeta, nosso colega é historiador. Sua trajetória neste campo começa em 1970 quando ingressa no curso de história da Universidade Federal do Espírito Santo - Ufes. No ano seguinte já estagiava no Arquivo Público Estadual. E conseguiu se formar em 1974, mesmo com muitas dificuldades, pois em 1973 entrou para o Fisco e foi trabalhar no interior.

De 1982 a 1997, Fernando lecionou no Departamento de Arquitetura da Ufes diversas disciplinas: História da Arquitetura; Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural; Arquitetura no Brasil, etc. E sempre na condição de professor com vinte horas semanais, para o horário ser compatível com seu cargo de fiscal. A partir de 2003, participou da primeira turma do Mestrado em História Social das Relações Políticas naquela universidade. "Defendi em 2005 a dissertação Elites Políticas Espírito-santenses e o Reformismo Autoritário (1930-1937), que busca analisar os arranjos políticos em nosso estado durante certo período da Era Vargas, sob a liderança do interventor e governador João Punaro Bley. Retomar os estudos acadêmicos depois de alguns anos parado foi uma experiência muito enriquecedora."

O trabalho de Fernando como historiador também inclui a publicação de livros, artigos, pesquisas e inclusive organização de obras de outros autores. "Vamos lançar em março no Mestrado de História da Ufes um livro de um grande historiador capixaba chamado Mário Aristides Freire que morreu em 1968 e foi Secretário da Fazenda nos anos 30, exatamente nesse período que pesquisei para minha dissertação."

Fernando fala com entusiasmo desta obra, pois além de contribuir para o resgate da história de nosso Estado é uma forma de valorizar o trabalho do Fisco, já que Mário Freire foi um Secretário da Fazenda conhecido por sanear as dívidas do Estado e modernizar a Secretaria, além de ter sido o primeiro presidente do Banestes.

"Mario Freire foi um historiador competente, e muita coisa que a gente sabe hoje sobre esse período da história capixaba deve-se a pesquisas iniciadas por ele. Seus livros buscam não apenas valorizar personagens como Vasco Coutinho, Maria Ortiz, Araribóia, Domingos Martins, mas também conhecer a catequese dos jesuítas, o surgimento das vilas, ou seja, eles lançam luzes sobre os processos da colonização portuguesa em terras hoje espírito-santenses. Em 1945, Mário Freire publicou um livro chamado A Capitania do Espírito Santo: crônicas da vida capixaba no tempo dos capitães-mores 1535-1822. Antes de morrer ele revisou este livrou, incluiu novas observações e citou a bibliografia na qual baseou seus escritos. Eu e um amigo, Reinaldo Santos Neves, organizamos esta nova edição, revista e ampliada pelo próprio autor, e vamos lançá-la na Ufes em março deste ano, com apoio da Lei Rubem Braga da Prefeitura Municipal de Vitória."

O Auditor

Como bom historiador que é, Fernando faz questão de registrar sua vida funcional. Afinal é em seu trabalho que ele busca inspiração para suas obras.

Em 1971, Fernando estagiava no Arquivo Público Estadual e conversando com colegas descobriu que haveria um concurso público para a fiscalização. Estudou bastante e no ano seguinte fez as provas e foi aprovado entre os primeiros colocados. A nomeação ocorreu no início de 1973. Seu primeiro local de trabalho foi em sua terra natal: Colatina. Dividia seu tempo cumprindo as tarefas de inspetor fiscal - na época este era o nome do atual cargo de auditor fiscal - e seguindo o curso de história na Ufes. Foram dois anos fazendo este trajeto até terminar seu estágio probatório. Passado este período foi convidado para assumir o cargo de diretor do Arquivo Público Estadual onde trabalhou nove anos.

Quando saiu da direção do Arquivo Público, no final de 1983, foi convidado para trabalhar na Secretaria de Educação e Cultura como assessor técnico. E lá ficou mais de três anos como membro do Conselho Estadual de Cultura, auxiliando na defesa do patrimônio cultural capixaba.

Em junho de 1987 retorna para Secretaria da Fazenda onde está até hoje. "Na Secretaria já trabalhei em vários setores: no Arquivo Geral; no gabinete do Secretário na gestão anterior do Dr. José Teófilo, promovendo ações de modernização da Secretaria; no setor de Dívida Ativa e atualmente estou na Subgerência de Orientação Tributária da Getrib. Orgulho-me de ter participado, junto com uma equipe de bons servidores, de muitas atividades que culminaram na elaboração de um Sistema de Arquivos da Sefaz e no aperfeiçoamento do Sistema de Protocolo Eletrônico. Nenhuma outra secretaria na administração estadual conta com serviços de tal qualidade."

"Muitas pessoas falam que por ser historiador e preocupado com questões culturais minha cabeça nunca esteve na Secretaria da Fazenda, o que não é verdade. Eu gosto da Secretaria, dos colegas, do ambiente de trabalho e sempre procuro contribuir para melhoria dos serviços, para sua desburocratização, oferecendo um atendimento o melhor possível ao contribuinte. Porque a gente sabe que é o contribuinte quem banca toda essa estrutura e o nosso salário. Então ele deve ser bem atendido em todos os setores. Simplificar os procedimentos facilita a vida de todo mundo."

Facilitar a vida e estar à disposição do próximo, é um lema para esse verdadeiro Talento do Fisco, o nosso poeta, historiador e auditor fiscal Fernando Antônio de Moraes Achiamé.

** Poema de autoria do colega Fernando Antônio **

DÍVIDA ATIVA

Não, não adianta passar rápido as folhas do processo,
Rápido calcular a dívida.
Nem resolve fazer isso sem pressa.
E daí que ninguém escapa de ações mecânicas?
Nada disso me ilude, ou me consola.
Sei muito bem o que representam esses papéis,
Esses autos, a comunicação da juíza:
Jovem casal fumou maconha,
Foi preso, processado e condenado,
Desceu aos infernos e, no terceiro dia,
Não pagou as custas processuais.

Seus nomes (novos e bonitos!) serão lançados no
LIVRO ESCRITO COM LETRAS DE CARVÃO
Por deverem ao Erário estadual
O exato valor de 92,47 num dinheiro qualquer.
Em que moeda se calcula a ignomínia?

Procuro o
LIVRO ESCRITO COM LETRAS DE OURO
Pra ver se nele inscreveram algum nome.
Mas onde encontrá-lo?


Matéria publicada na edição nº 113 (jan-fev 2007) do jornal Ação Fiscal

 

Creusa Maria Figueiredo Giori

Walter Campos

Fernando Antônio de Moraes Achiamé

Carlos Arthur Schwarz

Marcos Tavares

Simão Itala Filho

Walter Fernandes Nogueira Campos