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   Entrevistas Gerais  

Marcos Tavares "Era uma manhã radiosa, o que talvez explique o meu fascínio pelo sol".

Ao termos o primeiro contato com Marcos Tavares, logo podemos perceber como é viver respirando poesia. Um belo humor, e uma linguagem carregada dos mais bonitos sentimentos e significados até no simples ato de responder uma gama de perguntas para uma entrevista. Esse escritor, de um talento primoroso, em suas palavras, "viu a primeira vez a luz do mundo", em 16 de Janeiro de 1957. Capixaba da gema, tem como novo produto de sua imaginação, coincidentemente, o livro de poemas intitulado GEMAGEM. Título este que remete a palavras como: gema, clara, ovo, gen, gênese e genética - que lembram a criação, o surgimento - as temáticas do autor referem-se ao processo de criação da palavra, do ato de escrever. O perfil de Marcos Tavares é estimular o debate sobre a produção literária, a semiótica - que é a representação que o ser humano dá a aquilo que o rodeia - em formas de representação, tradução e criação da linguagem. GEMAGEM é também uma forma de homenagem ao poeta Oscar Gama, um grande amigo e seu contemporâneo, a quem dedicou o poema "Gema Gemido". O título assim, anagramático, tem também seu significado ligado à questão dos tetragramas. Nas palavras do autor "São quatro letras, um tetragrama G-E-M-A, gerando sete símbolos. Porque na nossa cultura ocidental, tetragramas têm grande significação, haja vista o representativo do Deus bíblico (Y-H-W-H) - que representa o tudo, a macroestrutura - e o designativo de microestrutura - as bases do DNA (A-T-C-G)".

Todos os poemas são frutos de uma produção que ultrapassa anos - entre 1976 e 1984 - , e só agora foram reunidos em um livro graças ao trabalho de uma turma de estudantes da UFES, orientados pela professora e jornalista Sandra Medeiros, que organizou a composição gráfica da obra. "Assim, ganhei ânimo para seguir o que amigos literatos (Renato Pacheco, Miguel Marvilha, por exemplo) já me cobravam: publicar os poemas, alguns premiados, antes restritos a coletâneas e a revistas", lembra Marcos. Esse foi o ponto de partida para a realização do projeto GEMAGEM, elaborado por sua irmã Norma, e que recebeu patrocínio da CVRD e da COIMEX, e o apoio da Lei "Rubem Braga".

Outro livro seu de grande sucesso foi o "No escuro, armados", de 1987. Esse foi sua primeira publicação, e que ganhou a admiração de vários autores renomados no mercado literário capixaba e nacional. O ensaísta e ficcionista Francisco Aurélio Ribeiro, cita no livro, A modernidade das letras capixabas, diz que "quase todos os contos de No escuro, armados apresentam um enfoque sobre a linguagem, o processo de criação e tematizam a sua (im)possibilidade de comunicação", ou seja, Marcos Tavares está sempre se dedicando à discussão do processo de criação literária, utilizando de jogos de palavras e analogias, recursos de forma e conteúdo para conquistar o leitor. "Exploram temas comuns, mas sua qualidade está nos recursos lingüísticos, no jogo de palavras, aliterações, jogo de significados", completa o ensaísta Francisco Aurélio. E o que diferencia o escritor, contista e "poemador" (como ele prefere), Marcos Tavares, é essa perfeita noção de compreender o sentido em que a linguagem literária e a forma como ela oferece possibilidades para ser escrita pode influenciar no conteúdo literário. Dessa maneira, ele trata de dar vida e movimento aos textos, para que eles possam conquistar o leitor sem estar em desvantagem com "as novas invenções midiáticas". "No meu entender, o mais importante é a linguagem. Afinal, é esta a linha limítrofe entre o ser humano e os demais animais. Saber usar a linguagem em todas as suas nuances é um sinal do grau de civilização de uma dada sociedade".

Mas não só de contos e poemas vive o homem. Remetendo a uma frase de Gustavo Flaubert, escritor de Madame Bovary "Considero como uma das felicidades de minha vida não escrever em jornais; isso faz mal ao meu bolso, mas faz bem a minha consciência". Assim também considera Marcos Tavares, que conclui: "Salvo exceções, num país de poucos leitores e de escassas livrarias, insensato é querer viver de Literatura. Antes, morre-se dela ou por ela".

Então, há 22 anos, ele vem exercendo sua função fazendária. Começou a trabalhar na área fiscal após passar em um concurso público para a função de Fiscal de Mercadoria em Trânsito (FMT), em 1984. Cumpria seus plantões em postos fiscais de Dores do Rio Preto, suldoeste do Espírito Santo, sobretudo na zona rural. "Disciplinei-me a fazer jus ao trabalho remunerado que me garante a sobrevivência", conta Marcos, que ainda acrescenta: "Sempre estive imbuído do melhor espírito de aplicar a justiça fiscal e de desencorajar as transgressões à Lei tributária. Afinal, se estamos num Estado democrático, nobre função é zelar por Ele, porque Ele é por todos".

Dessa maneira ele une as duas funções, a fazendária, e a, de certa forma, de Fiscal da linguagem de sua própria criação. Como ele mesmo diz, é realmente pago pra escrever, seja um auto de infração, seja outra notificação.

Tudo o que escreve é uma doce mistura de fé nas palavras, e analogias às passagens bíblicas e menções ao divino e à criação, e também da crítica a esse mundo confuso ("verdadeira Babel") ao qual pertencemos, com muito bom humor sempre. "(...) Inevitável é ali (no livro GEMAGEM) estarem os questionamentos próprios dessa fase (a temática existencial, o discurso amoroso, as reivindicações políticas, o senso libertário). As mesmas questões que têm angustiado a Humanidade ao longo dos tempos: a concepção da vida, o fenômeno da morte, o amor e sua finitude, a dor no amplo sentido, a irracionalidade das guerras, a opressão dos mais fortes (...)". No poema "Os sete dias" Marcos Tavares expressa fantasticamente essa mistura:

"No primeiro dia, visto que estava escuro,/ quase trevas, ascendi a lâmpada. // No segundo senti a expansão das águas / e providenciei conserto no encanamento.// No terceiro, semeei alface, reguei as plantas, / colhi os frutos segundo as espécies.// No quarto, fui tentado a dormir, / então, resoluto, serrei a cama e a janela.// No quinto dia, soltei os pássaros, / aos cães dei de comer e de beber.// No sexto, depositei o lixo recolhido // aos cinco cantos da casa. // No sétimo, exausto, deitei-me ao chão, / e, vendo o quão isso era bom, ali descansei. // E não sou - obviamente - Deus algum".

Esse misto de fiscal e escritor, detentor de grande estilo e exemplo de perseverança e trabalho correto, certamente não é "obviamente - Deus algum", mas é dono de um talento que enriquece o fisco capixaba e faz mérito ao reconhecimento que vem ganhando, tanto da mídia quanto do seleto público pensante do estado e do Brasil. "Hoje não basta contar uma história: há que se contá-la com estilo próprio". Estilo é o que não falta a Marcos Tavares, e considerações à parte, todos gostaríamos de continuar nos deleitando com os produtos da fértil imaginação desse autor.

 

Creusa Maria Figueiredo Giori

Walter Campos

Fernando Antônio de Moraes Achiamé

Carlos Arthur Schwarz

Marcos Tavares

Simão Itala Filho

Walter Fernandes Nogueira Campos