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   Memórias do Fisco  

José Valadão Nunes Quinto de uma grande irmandade (Nilo, Olga, Cléia, Altivo, José, Maria, Osvaldo, Hugo, Arcionílio e Luiz Carlos, nessa ordem), filho de José Nunes Macário e de Joana Flores Rios, nasceu em 04-07-1921, no Distrito de Rosal, no Município de Bom Jesus do Itabapoana (RJ), José Valadão Nunes, a contragosto de sua zelosa mãe, em Julho de 1951, sob o Governo de Jones dos Santos Neves, iniciou suas funções de Auxiliar de Arrecadação.

Inaugurou o Posto do Cachimbo, no Patrimônio de Criciúma (Distrito de Pequiá, em Iúna, ES), que então se encontrava em situação litigiosa entre ES e MG. Era a conturbada Região do Contestado. Getúlio Vargas iniciava seu último Governo. De fato, naquela época, famosa era a aversão de alguns habitantes dali contra quem quer que representasse qualquer forma de atuação estatal, fosse do Fisco ou fosse da Polícia.

Ali em Criciúma não parava Fiscal, quase sempre transferido por potencial ameaça de morte. Era ali legendária a valentia dos Florindo, a rixa entre algumas famílias. Uma tensão social sempre reinante, típica de lugar desassistido pelo Estado, que só se fazia presente para reprimir, para prender, para tributar e para multar.

Mas, eis que o nosso José Valadão logo angaria a simpatia popular dada à sua íntima relação com bebida mui apreciada pelos locais - a boa cachaça confeccionada nos alambiques da região. Nos botecos, tanto bebia uma quanto pagava outra dose a quem dele se aproximasse para uma conversa de “causos”.

Homem de sete instrumentos e sempre mui prestativo, José Valadão foi arraigando-se na vida local, emprestando gratuitamente seus talentos ora aqui, ora ali, colhendo gratidão. Chega até ele o drama de uma moça pobre, sofrida de mal incurável, necessitada de diárias injeções de um medicamento. Morava no alto do morro. Ausente estava o farmacêutico local. E lá subiu Valadão para atender à urgência. As mãos habilidosas no trato com seringa e agulha revelam um enfermeiro nato. Conquista o coração da família e da vizinhança. Espalhado o feito, mesmo os tidos como valentões e rebeldes passam a respeitá-lo e a admirá-lo, talvez por vislumbrarem eventual necessidade de seus serviços. Em terra sem médico, quem tem agulha e seringa é doutor.

Mas, tempos depois, a moça doente, já bem debilitada, veio a falecer. Ausente estava o carpinteiro oficial. Urgia sepultar a jovem. Munido de improvisados artefatos de carpintaria concedidos por um fazendeiro, Valadão põe mãos à obra. E, em poucas horas, das toscas tábuas de cedro fez brotar a urna mortuária.
Cresce sua fama. E outra vez conquista a alma popular.

Naquela então afamada região de Iúna conseguiu impor-se sem, no entanto, portar sequer uma arma que não fosse o diálogo e o gesto solidário. Compreensivo com as dificuldades do homem rural, procurava exercer com muita justiça e bom senso o seu oficio. Lugar de pouquíssimo trânsito de mercadorias, dispensava de cobrança os humildes vendedores de galinha, que as transportavam dependuradas em varas sobre os ombros: as “manguaras”. Estes e fiscais estavam, invariavelmente, em posições antagônicas.

Entretanto, Valadão evitava as atitudes autoritárias que marcaram a sua geração, em que muitos eram recrutados tão somente pela habilidade com armas de fogo. Eram tempos difíceis. A alta inflacionária, gerada pela política excessivamente nacionalista de Vargas, sacrificava o povo. Valadão era sensível ao reflexo disso no meio rural. Tinha conhecimento de causa: ainda menino, assistira seu próprio pai, então fazendeiro próspero, ousar expansão de negócios com compra e venda de café. Pouco hábil na arte capitalista, a crise mundial de 1929 levara à bancarrota o velho Macário; a ele, admirador tal de Luís Carlos Prestes, a ponto de a um filho dar esse nome.

Numa outra ocasião, soube por um cego que adultos insensatos, incentivavam briga entre dois meninos de famílias arqui-inimigas. Um garoto tinha à mão uma pedra, o outro portava um canivete. Quem quer que ferisse o outro certamente desencadearia uma contenda pavorosa. José Valadão, em por ali passando, resolveu selar a paz entre os dois. Deu, a cada um, um conselho e ... 10 tostões.

Gradativamente foi galgando vários níveis funcionais. De Iúna, em 1954 foi para o Posto “Vista Alegre”, na antiga Divisa (atual Dores do Rio Preto, ES). Em 1959, Posto da Prata, em Guaçuí, ES. Aí conhece a inesquecível figura de José Moulin (pai de Luiz Moulin) sempre prestativo. Em 1963 retornou à mesma Divisa, atuando em quase todos os Postos (Oliveira Nunes, Três Estados, Duas Pontes, Braúna, Valtair Barbosa). Nessa região de inverno bem rigoroso, com problemas de saúde, aposenta-se, em de Julho de 1983.

Por onde passara, fizera ficar mais extenso o seu compadrio - dele e de Sebastiana (“A Madrinha ” de muitos), sempre fiel escudeira. Valadão arbitrava jogo de futebol, dirigia time, fazia e ensinava enxerto de mudas vegetais, promovia festas, participava da política, atuava em eventos vários (aos 70, foi ator numa comédia). Sempre integrado à comunidade local.

Hoje, longe das “cancelas” (porteira que dava passagem nos Postos Fiscais de divisa), José Valadão vive tranqüilamente,“ longe da anarquia”, segundo ele. Se lhe surge um atento e interessado ouvinte, conta suas histórias, que são tantas. Dono de prodigiosa memória e lucidez invejável, nos seus 83 anos, encontra na diária leitura um prazeroso passatempo. Ao mesmo tempo em que, absorto, mergulha nas páginas de livros e revistas, dali vem à tona sempre trazendo ora ensinamentos, ora comentários, invariavelmente unindo, de forma apreciável, o passado e o presente. Impressiona pela sua capacidade de conversar sobre qualquer assunto.

Fruto de sua união conjugal com Elzira, nasceu um quinteto (José, Miguel, Jerônimo, Eny e Marlene); da segunda, com Sebastiana Bazani, gerou quarteto (Joana, Olímpio, Dimas Tadeu e Lilia).

De tino empreendedor, fez construir casas. Mais que isso, ensinou e incentivou o filho Olímpio a exercer a profissão de construtor de casas, exercendo ele o papel de rigoroso - agora, sim - “fiscal das obras.” Ao outro filho, seu homônimo, José Valadão, muito incentivou o aprendizado com o dentista prático, Sr. Queiroz, bancando-lhe toda a instrumentária do ofício.

De espírito irrequieto, reside alternadamente em duas cidades: quando enfastiado da zona urbana de Guaçuí, desloca-se com a dinâmica Sebastiana, 60 anos, para uma casa bem modesta, num sitio da zona rural de Dores do Rio Preto. É lá que, bom entendedor, orienta os filhos no plantio disto ou daquilo, na criação deste ou daquele animal. Sua meia palavra basta. É uma ordem. Rei que nunca perde a majestade.

Recentemente, ali sobre um córrego, a sua teimosia e sua ética fizeram construir uma ponte de concreto (“Para durar muito tempo!”), quando o comum seria fazê-la de eucalipto - ou, à moda corrente, com recursos oriundos dos cofres municipais. Provém de uma família de gente estudiosa e competente, a mesma que dera, no mínimo, um Inspetor Federal de Educação (Dr. Nilo Nunes Moraes, irmão), uma Procuradora do Estado do ES (Dr ª Maria Cristina Moraes, sobrinha), uma Fiscal da SEFAZ (Maria Tereza Perdigão Varejão, sobrinha, falecida) e outro Fiscal da SEFAZ (Luiz Carlos Moraes, irmão, aposentado).

(Texto escrito por Marcos Tavares, a partir de coleta de informações pessoais com o sogro José Valadão Nunes, a quem homenageia pela passagem de seu 83 º natalício, em 04-07-2004)



Publicado no jornal Ação Fiscal de junho/julho de 2004.

 

Orlando Pereira Fernandes

Anacleto Freire Gonçalves

Getúlio Marques Figueiredo

Almir Vieira Lima

Délio Betero

Jair Gomes da Silva

Adelaide Ferron Rosa

Celi Magalhães

Miguel Ribeiro

Jorvalim Jerônimo de Souza

Paulo Fernandes Rangel

Ari Bezerra

Delson Castello

Moacyr Loureiro Pereira

Itamar Moreira da Fraga

Eduardo Lugão Marins

Sebastião Veridiano de Souza

Eliseu Ferreira de Paiva

Zuleide Rosangélica de Assis Lopes

Abel Teodoro Inocêncio

José Valadão Nunes

Dermeval de Souza Lemos

Alaor Braga

Paulo Valiate Pimenta - "Professor Paulo"