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Dermeval de Souza Lemos, 75 anos, mora no bairro Honório Fraga em Colatina, casado com Nadir da Costa Lemos de 65 anos, têm 9 filhos que se chamam: Gutemberg da Costa Lemos (que infelizmente não se encontra mais entre nós), Verônica da Costa Lemos, Ireni da Costa Lemos, Eliani da Costa Lemos, Joana D’arc da Costa Lemos, Romate-Ezer da Costa Lemos, Dilermando da Costa Lemos, Raquel da Costa Lemos e Andréia da Costa Lemos. Têm também 18 netos: Diogo, Rômulo, Marlon, Flávia, Fernanda, Larisse, Bruna, Vítor, Felipe, Mariana, Bianca, Ricardo, Marcos, Anny, André, Juan Pablo, Tame e Diovany.
Como entrou para o fisco: “Antes de me tornar um Fiscal eu trabalhava na fazenda do Dr. José Merson Vieira, que na época era prefeito de Barra de São Francisco. Nesse período meu patrão me chamou para trabalhar com ele na prefeitura como auxiliar de eletricista. Assim que houve nova eleição nós apoiamos um candidato que perdeu para Joaquim Alves de Souza. Tendo acontecido isso resolvi pedir exoneração do cargo em fevereiro de 1959, ficando certo tempo parado. Logo depois meu antigo patrão, ganhou para Deputado Estadual e me ajudou emprestando uma quantia em dinheiro para eu montar um negócio. Com esse valor consegui abrir um açougue, mas mesmo assim queria trabalhar em outra coisa. Foi quando meu amigo Getúlio de Souza Louback soube de minha situação e me falou que estavam precisando de alguém para ficar na fronteira, pois não havia ninguém para trabalhar nas Zonas Litigiosas. Passaram-se alguns dias. Quando chegou o sábado eu matei o último porco no açougue e no domingo saí para comprar porco para matar na segunda-feira”. Andando pela rua ouvi alguém falar com Ilarino Teodoro de Mattos que trabalhou comigo na prefeitura: _ Onde mora o Valtinho (alguns amigos costumam me chamar por esse apelido)?. E Ilarino respondeu: _ Ele vem lá! Me parando na rua, Flávio Lugon perguntou: _ Você quer trabalhar na fiscalização da fronteira? Eu respondi sim e no outro dia cedo já estava na coletoria. Isso foi em 20 de abril de 1959.
O trabalho não era fácil “Naquela época não era como hoje, pois exigia-se do Fiscal muita coragem para enfrentar situações perigosas e justamente por esse motivo, era difícil encontrar alguém que aceitasse. O primeiro lugar onde trabalhei foi no Posto Fiscal de Bicame, na fazenda do Henriquinho, no Rio do Campo pertencente a Barra de São Francisco. O posto era uma árvore, e quando chovia a proteção era uma capa gaúcha. E para me alimentar andava 12 Km para pegar o almoço na pensão do Nênem Batista. Às vezes pegava fiado, porque cheguei a ficar 8 meses sem pagamento. E quando não dava para ir até a pensão ficava sem comer. Não costumava ter revezamento, já fiquei 5 meses sem ver a família!”
Um dia saí do posto procurando uma cana para me alimentar. Foi quando ouvi uma buzina de jipe, que trazia Ilarino, que saiu da prefeitura e foi trabalhar na fiscalização, e também Sebastião Scárdua e o soldado Pimenta. Eles foram chegando e falando as seguintes palavras: _ Dermeval pega seu material e entra aqui. Eu nem perguntei nada. Entrei no jipe e eles me levaram para Prata dos Baianos, em Ecoporanga. Nesse dia um fiscal, Osvaldo Coimbra, entrou bêbado no meio da procissão da igreja católica e disparou 6 tiros de revólver 38. A reação do bispo foi imediata, mandou prendê-lo. Tendo sido exonerado, tive que substituí-lo. Quando cheguei na Prata dos Baianos as pessoas me olhavam e faziam vários tipos de comentários porque eu estava com um 38 na cintura, mas com o tempo fiz amizades com os moradores do local. Durante 4 anos, sem férias e sem substituto, me deslocava de cavalo até a Coletoria de Ecoporanga para prestar contas a cada 30 dias.”
“Enquanto trabalhava em Prata dos Baianos, me deram a notícia que meu filho estava mal. Na mesma hora peguei o cavalo e fui até um local próximo a Santo Onofre, depois tive que seguir caminhando. Muito tempo depois, parou um caminhão e o motorista me ofereceu carona em cima da carroceria, que estava carregada de café. A viajem prosseguiu, estava chovendo muito. Quando o caminhão parou no Posto Fiscal para o motorista, Altivo Abelar, recolher os tributos do café,foi que o meu colega de trabalho Ruy Carlos Gomes, que estava no posto, me viu molhado, em cima do caminhão, e falou com Altivo que eu era Fiscal e pediu que me colocasse na cabine. Só assim ele me convidou para entrar, pois eu não me identifiquei antes, pois achei que não fosse necessário. Chegando em Barra de São Francisco, onde minha família estava na ocasião, fui cuidar da saúde de meu filho, que se recuperou.”
O risco de doenças “Em seguida fui para Conceição da Barra, substituir Antônio Fortunato Pratti, no Posto Nova Canaã, fronteira entre o Espírito Santo e Bahia. Nesse posto a mercadoria que mais passava era caixão, com mortos pelo “impaludismo” (malária). Por esse motivo tive que ser transferido para a Coletoria da Serra, porque fui acometido pela doença. Assim que me recuperei um pouco, voltei ao trabalho. Mas pelo fato não ter me recuperado totalmente, saí da coletoria da Serra e fui para a Coletoria de Boa Esperança, substituir Norberto Lúcio Ribeiro que estava ameaçado de morte. Nosso colega João Farias também foi ameaçado, ele era Fiscal e também prefeito da cidade, tinha inimigos políticos e infelizmente não escapou, sendo assassinado.” Em Colatina “Transferido para a Coletoria de São Mateus, trabalhava na fiscalização. Em São Gabriel da Palha fazia fiscalização no Posto Cachoeira da Onça. Logo depois vim para Colatina, onde eduquei meus 9 filhos, todos com curso superior e aqui estou há 32 anos, mas durante esse período houve transferências para outras cidades como: Pedro Canário, Conceição da Barra, Baixo Guandu e Barra de São Francisco.Eu gostava muito do meu trabalho, da minha função, pois me fazia muito bem.”
Aposentadoria “Em 15 de janeiro de 1993 foi publicada a minha aposentadoria como Agente de Tributos Estaduais ATE II, mas ainda trabalho muito, cuido de minhas propriedades e também da saúde fazendo hidroginástica.”
Publicado no jornal Ação Fiscal de março/abril de 2004.
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