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Délio Betero começou sua trajetória no fisco no ano de 1963, quando foi contratado para exercer o cargo de vigilante de fronteira no antigo Posto Fiscal da Máquina, atualmente conhecido como Posto Fiscal Hugo Talon. Ficava na região de divisa do Espírito Santo com o Rio de Janeiro, em Itabapoana. Ele lembra que logo nesse início, tinham muitas dificuldades nos postos, o acesso era complicado, e era deles a responsabilidade de lavar e cozinhar. Lembra também como era mais difícil na época, quando eles ainda utilizavam cancelas manuais para despachar os carros "tínhamos que ter todo o cuidado para manusear aquilo", recorda. Logo depois, cerca de três anos após ser contratado, foi transferido para o Posto Fiscal José do Carmo, que fica em Santa Cruz, também como vigilante de fronteira. "Na época já era um posto muito movimentado, como é até hoje" completa.
Ficou cerca de 13 anos nessa região, entre Máquina e Santa Cruz, até ser transferido para Cachoeiro, ocupando cargos como os de auxiliar de fiscalização e até mesmo coletor. Para quem não sabe, ou não lembra, não existiam as agências, e todos os impostos eram destinados à Coletoria. Nesse local, os próprios fiscais faziam os pagamentos de professores, funcionários públicos em geral. Rememora também, que muitas vezes eles ficavam até seis meses sem receber o pagamento pelo trabalho. Mais tarde, no ano de 1984, foi transferido para Boa Esperança, e dali foi como encarregado para o Posto de Pedro Canário, na divisa da Bahia com o Espírito Santo. Nessa época ele relembra uma história muito interessante. "Fui convidado a trabalhar nesse posto a convite de um amigo, Dalton Perin Zipinote, que desconfiava que existia na época um contrabando de café naquela região. Ele queria um flagrante, e aconteceu. Com a ajuda dos funcionários novatos, eu inverti a escala e consegui dar o flagrante em um carregamento de café com nota fria. Apreendi o carro e junto aos funcionários ficamos dando assitência lá no posto, até porque na época não havia o policiamento nos locais. Aconteceu que o caminhão era de uma firma poderosa em Vitória. Quando achei que tinha feito uma boa ação eu recebi um memorando me desligando do cargo. Fui até Vitória conversar com o Dalton e ele também não soube me explicar o que havia acontecido. Na época quem era o subsecretário da fazenda era Alcides Campos, e era ele quem cuidava dos funcionários. Recebeu-me mal, porque ele tinha uma ligação com os empresários do grupo de café. Relatei em um papel o acontecido e encaminhei pra Vitória. Eu tenho cópia do processo, e lá está escrito que o motivo do meu desligamento foi por interesse da administração. Fui afastado, e depois de um tempo ameaçaram me mandar para Mucurici, no extremo norte do Espírito Santo, divisa com Minas Gerais. Então pedi intervenção do meu pai, que na época era político no sul do estado. Ele, junto a um amigo que também era político, foi até o subsecretário para tentar resolver a situação e saber o motivo da perseguição. Quando o Alcides viu o meu pai acompanhado com o outro político, ele mudou totalmente o discurso. No final das contas já estava perguntando ao meu pai para onde eu queria ir e o que eu queria", relata Délio.
Quando saiu desse posto, foi convidado por outro amigo, Sebastião Zigoni, a trabalhar como Inspetor Regional em Santa Tereza. "Fiquei um bom período como inspetor regional, e depois peguei o cargo de Delegado regional". Ainda considerou em meio a sorrisos, "(...) passei por todos os cargos, de vigilante de fronteira a Delegado Regional". Finalmente chegou em Vitória para trabalhar como Fiscal de Rendas, e aqui ficou até se aposentar, no ano de 1994.
Entre as várias histórias e fatos curiosos que presenciou dentro do fisco, seu Délio não esquece de uma vez em que, trabalhando como inspetor regional, foi até um posto fiscal em um dia de jogo do Brasil, em um ano de Copa do Mundo, e não encontrou o fiscal no local. No outro dia, mandou chamá-lo para saber o que havia acontecido, e surpreendeu-se com a resposta do fiscal: "Eu vou deixar de ver o jogo da seleção para ficar aqui no posto?" Hoje, em meio a risadas, ele lembra que na época teve que tomar providências junto àquele fiscal. Em outro momento ele relembra que uma vez, indo visitar outros postos, ele se deparou com um recado pregado na porta do posto, que dizia: "Tô no boteco!". Essas e outras histórias estão guardadas com carinho na memória de Délio, que em todo o momento sorria saudoso. "Trabalhei no sul, passei pelo norte, nas regiões das montanhas, e vim parar em Vitória. Já passei por todos os lugares, muitas pessoas me conhecem, estive 33 anos na ativa", completa o colega.
Atualmente, "Seu Délio" vive em Itapoã. Tem dois filhos formados, casados e que vivem bem, entretanto com uma certa tristeza no olhar ele conta um fato triste da sua vida: "Foi um golpe muito grande, perdi uma filha, com 19 anos, em um acidente de carro no ano de 1993". Mas seu sorriso volta ao rosto ao falar dos três netinhos que já tem, e do quarto, uma netinha que está para chegar na família. Possui hoje uma propriedade de produção de côcos. "São cerca de mil pés de côcos, que administro junto com um dos meus filhos", conta. Ao final da entrevista, com toda humildade que tem, "seu Délio" finaliza com uma simples pergunta: "Dá para fazer uma materiazinha, não dá?"
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