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O fiscal aposentado Miguel Ribeiro, 69 anos, tem muitas histórias para contar. Já rodou o Espírito Santo quase todo pela fiscalização. Trabalhou inicialmente em Barra de São Francisco, por lá casou-se e teve cinco filhos. Passou por Vitória, pelas fronteiras do Estado com a Bahia, Rio de Janeiro e por alguns municípios. Teve as mesmas dificuldades dos fiscais da antiga. O posto era de tábua, no meio do mato e à noite era um breu só. Naquela época, fiscais e contribuintes só andavam armados. "Graças a Deus nunca foi preciso usar a arma". O fiscal, depois de 32 anos dedicados ao Estado, tem tido ótimas oportunidades de conhecer e lugares novos. Já visitou a Espanha, Grécia, Egito e Israel. Há poucos meses foi aos Estados Unidos, onde moram duas de suas filhas, e pretende voltar à América do Norte com a mesma intenção de milhares de jovens que voam para lá, trabalhar.
Miguel conta que quando entrou no Estado, em 1959, como contratado na função de vigilante de fronteira, o serviço era duro. “Corríamos atrás dos direitos da Fazenda as 24 horas do dia. Em primeiro lugar pensava-se nos interesses do Espírito Santo e depois na família e todo o resto”. Por ter se dedicado tanto ele não entende por que os governos vêm castigando os funcionários públicos com redução e parcelamento de salários e tirando algumas vantagens adquiridas com muita luta. "Os governos sempre pagaram bem e em dia. Agora isso acabou. Hoje eu tenho mais de sete meses de salário para receber". Nos cálculos de Miguel estão incluídas as diferenças salariais e os três meses de salários atrasados do Governo Vítor e as retenções do seu sucessor, José Ignácio Ferreira. O crédito rotativo concedido no final do governo passado também traz más recordações para o fiscal. Ele lamenta ter aceitado o empréstimo, que se transformou numa bola de neve de endividamento."O crédito foi uma bomba para mim. Tive que negociar em 36 vezes e com juros. A lei de contingenciamento dizia que pagariam os nossos salários atrasados a partir de março de 99 e isso mataria o empréstimo. Mas palavra de governo não se escreve, não vale nada.", reclama.
Outra mágoa é com relação a Secretaria da Fazenda que, segundo Miguel, não dá atenção aos fiscais aposentados. "Você só consegue alguma coisa através do Sindicato. A Sefa não quer saber se você está vivo ou morto. Aposentou, perdeu o valor, é descartado. Uns chamam de gozar a aposentadoria, eu digo que é sofrer”.
Miguel é um homem de costumes reservados. Quase não sai para encontros sociais. Vai à igreja Batista, ao Sindifiscal e gosta de andar no calçadão da Praia da Costa. "Eu não tenho turma, quase todos os meus colegas da fiscalização desapareceram, aposentaram-se e cada um foi para o seu canto. Alguns ficaram por aqui como Murilo, Lingüinha, Vandir, mas eu só os vejo no Sindicato", comenta.
Mas o maior prazer de Miguel é viajar com sua esposa. Eles estiveram em países da Europa, África, Ásia e, recentemente, na terra do Tio Sam. "Eu adoro conhecer outros lugares. Na Europa, fui a passeio, mas para os Estados Unidos fui trabalhar e vou voltar". O país que mais o impressionou foi Israel. “A viagem foi maravilhosa. Israel é um país fascinante. Estivemos naquelas fronteiras onde há tensão com grupos armados, mas ficamos mais tempo em Jerusalém. Fizemos toda a via-crucis de Cristo``, diz extasiado. Já a América do Norte, Miguel diz que é uma terra farta, com trabalho para todos e bom salário. Foi visitar suas filhas que moram em New Hampshire. Voltou de lá com boas recordações dos americanos que trabalharam com ele num supermercado. "Foi só um mês de serviço e, mesmo assim, as portas ficaram abertas. O gerente disse que gostou do meu trabalho". Mesmo sem falar inglês, ele viajou sem as filhas para Massachussets e Orlando e diz que tudo correu sem muitas dificuldades. "Não fiz nenhum curso de inglês antes de ir, primeiro porque minhas filhas me ajudaram e quando elas não estavam por perto, procurava alguém que falasse espanhol para me comunicar". Apesar das diferenças entre o Brasil e o rico Estados Unidos, ele ainda acredita no seu país. “Se não fosse o desemprego e a corrupção praticada por alguns políticos, estaríamos no melhor país do mundo para morar. Acho que ainda será um dia”.
Publicado no jornal Ação Fiscal de fevereiro/março de 2000.
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