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O tesouro de alguns homens pode ser um baú de jóias com muito valor ou uma conta bancária recheada, mas para o fiscal aposentado Jorvalim Jerônimo de Souza o grande tesouro é ter conseguido dar estudos aos filhos. "Não posso deixar herança para eles, mas o que pude oferecer é a formação, o conhecimento, e isso ninguém tira". Ele é filho do município de Muniz Freire, entrou para o serviço público em 1959 e ficou dez anos sem férias. Trabalhou muito para conseguir criar seus seis filhos.
Seu Valim, como é conhecido na intimidade, já morou com a família nos postos em que trabalhava. Foram oito anos vivendo em locais precários e entregues a própria sorte. "Já moramos num cômodo que só tinha cama e fogão de barro. Minha filha já tinha dois para três anos e dormia numa rede de balaio", recorda. Os postos geralmente tinha vizinhança distante. Eles compravam carne e banha dos fazendeiros das redondezas. Buscavam a água a muitos quilômetros do posto.
Antes do serviço público. Seu Valim trabalhou como balconista e vendedor. Depois que casou com dona Hélina ainda trabalhou três anos numa companhia de extração de manganês. Ao ser contratado para o Estado foi enviado para o posto de Barra do Capim, em Mantenópolis. A partir daí, ele percorreu vários postos, alguns até com nomes estranhos como Posto do Bambé e Dona Chiquinha, que, segundo ele, fica entre Barra de São Francisco e Café Ralo.
Naquela época não existia escala e o fiscal não podia se ausentar de sua posição. "Corri as fronteiras descalço por um bom tempo. Não podia sair do posto para comprar uma botina nova para substituir a que não valia mais nada". A família só fixou residência quando as crianças já estavam maiores e tinham que estudar. Dona Hélina então ficou em Barra São Francisco e Valim foi transferido para Conceição do Quinze, um posto mais movimentado. "Lá havia. escala de 24 X 24 horas. O chefe tornou-se amigo. Então eu e um colega combinamos de fazer o revezamento por semana”. Mas em outros postos teve que agüentar as espertezas de quem fazia de tudo para lesar o erário público. “Eles puxavam o café no burro. Para que eu não seguisse as pegadas da tropa, amarravam um galho de mato atrás para esconder o rastro. Eu seguia aquele risco pela estrada afora e quando menos esperavam eu os pegava". Ele conta que por causa disso já houve quem o quisesse matar. "Eu andava armado, minha mão deu calo por segurar a carabina".
Hoje, os tempos são outros. Nem carabina, nem moradia fixa nos postos. Seu Valim só lamenta por não haver fiscais suficientes mais para a função que exerceu durante anos. "Em Ecoporanga, onde moro, tem um fiscal que responde pela Coletoria. Recolhe imposto quem quer".
As férias não gozadas durante dez anos foram contadas na aposentadoria e, hoje. Seu Valim só pensa em descansar. Gosta de ir para Conceição da Barra e Guriri. "Quando estou em casa fico à toa. Trabalho desde os 12 anos de idade, agora eu quero descansar". Ele merece!!
Publicado no jornal Ação Fiscal de outubro/novembro de 2000.
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